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Brucutu - Símbolo da Geologia da USP - Adaptado do original de Jack $ Carole Bender pelo então estudante Fernando Pellerim de Araújo da primeira Turma, formada em 1960.

 O GRUPO FIGUEIRA DA GLETE
 COMEMORANDO O DIA DO GEÓLOGO
Ano II - Nº 7        Edição Especial : 30/05/2003                                                             Página 5
Brucutu News Digital

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Conheça alguns detalhes da I Feira Nacional  de Empresas de Geologia - FENAFEG realizada no período de 26 a 30 de maio de 2003 na sede do IGc - USP I FENAFEG                                                            Retorna a página anterior

CONTOS & HISTÓRIAS
TIRO NA FIGUEIRA


Deve ter sido aí por 67, quando muitos de nós participavam de ações "carentes de legalidade"  contra a ditadura. Ali perto da sala nova o Carlinhos Leite passou-me, todo conspirativo, uma lapiseira prateada. Examinei o objeto e, já cagando nas calças, percebi que era um dispositivo disfarçado para disparar balas calibre 22. Passado o susto, os "terroristas" se juntaram ao pé da Figueira para examinar a arma e fazer planos. Eu, o Edson Cachoeira, seu partner Percival, Celsão, Márcio, Mané Espanhol e, se não me engano, o Décio Pregnolato.


Àquela altura eu já me exibia como mestre em armas e grande orientador da guerrilha urbana. Não deu outra, a porra disparou na minha mão, com a bala passando a milímetros da cabeça do Percy. Todos brancos de susto, a roda se desfez tão rápido como havia se feito. Assobios, alguém fazendo de conta que havia soltado uma bombinha. A bala está até hoje lá cravada no tronco da Figueira. Tudo em ordem. Figueira não fala; e mesmo que falasse não diria nada, era nossa companheira.
                               
                                                   Álvaro.



CONSELHOS DO LEINZ


Já em 64 e 65 a polícia estava doida para me pegar. Rescaldo ainda de minha militância política antes de 64 no Partidão e do fato de ter sido , juntamente com um irmão, "caguetado" logo após o Golpe Militar por um filho da puta que era noivo de uma prima. Por segundos não me pegaram em minha casa. Mas chegaram a levar minha irmã e a empregada. 

Alguns ainda devem se lembrar do Vaz, em plena assembléia na sala do meio, me dando o aviso que tinha gente me procurando e eu saindo rápido pela grade da Figueira. Nessa época, enquanto prosseguia intensamente, com tantos outros colegas, nossas “conspirações políticas”, fiquei um tempo amoitado e escondido no apartamento do Ernesto Rosa Neto, aquele professor de Matemática do Cursinho do Grêmio.

Pois bem, um belo dia o Leinz me chamou à sala dele. Imaginei o pior: a polícia está lá e o "nazista" vai me entregar. Fui ressabiado olhando pelas frestas de portas e armários. Em sua sala estava ele só, sentado à sua mesa com seu costumeiro avental branco. Pediu-me que sentasse à sua frente.
Após alguns momentos de intenso silêncio, ele falou mais ou menos essas palavras com seu característico sotaque: --Álvarro, você deve saber que a polícia está à sua procura. Eu assenti com a cabeça. Ele continuou. -- Fique tranqüilo, eu não vou lhe entregar a eles e  não permitirei que eles entrem aqui para lhe pegar. Mas gostaria muito de lhe dizer uma coisa.


Em minha juventude na Alemanha fui do movimento nazista. Por certo com o mesmo entusiasmo seu. 

Hoje percebo o enorme erro que cometi por não ter conseguido ter calma e raciocinar melhor sobre as coisas que fazia. E é só isso que eu quero lhe dizer. Tenha calma e pense muito nas coisas que você está fazendo. E boa sorte. Finalizou estendendo-me a mão, a qual eu peguei ainda zonzo e incrédulo com aquele inesperado momento.  

Por curiosidade, esse conselho do Leinz foi idêntico a um que meu pai me enviou por bilhete (que guardo em um quadro até hoje), também preocupado com o que me poderia acontecer por minha atuação política. Confesso que, ainda que tocado pelos avisos, continuei por um bom tempo deixando-me levar pela paixão juvenil nas lutas de nossos tempos. 

Não me arrependo de nada. Todos nós naqueles tempos nos doamos generosamente com a melhor das emoções. Mas, a partir de uma determinada fase, as palavras de meu pai de do Leinz começaram a crescer dentro de mim. Talvez elas tenham me salvado da mesma morte que atingiu tantos companheiros. Hoje as repito para meus filhos em suas escaramuças com a vida: pisem fundo, mas tenham calma e usem o pensamento.
 
Fica aqui registrada minha gratidão ao Prof. Leinz.            
                                     Álvaro



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