O 

Brucutu - Símbolo da Geologia da USP - Adaptado do original de Jack $ Carole Bender pelo então estudante Fernando Pellerim de Araújo da primeira Turma, formada em 1960.

 O GRUPO FIGUEIRA DA GLETE
 NO DIA DO GEÓLOGO

Ano I - Nº 7        Edição Especial : 30/05/2003                                                              Página 4

Brucutu News Digital

Página 1   Página 2   Página 3   Página 4   Página 5   Página 6   Página 7   Página 8 Página 9

Retorna a página anterior

 
A História de uma Árvore
 

     

É uma árvore. Apenas uma árvore como existem dezenas nesta minha querida cidade de São Paulo. Tem sua identidade botânica: é Angiosperma, Dicotiledônea. Tem “nome” e “sobrenome”. Chama-se Fícus Macrophyla, e é conhecida simplesmente como Figueira.  

A semente da árvore personagem desta história, deve ter sido plantada ou simplesmente caiu no solo ainda no século XIX, e teve a felicidade de germinar e crescer na antiga chácara Mauá. Acompanhando o progresso, a chácara foi loteada, e teve início o primeiro bairro planejado de São Paulo, os Campos Elíseos.  Lotes logo foram ocupados por mansões da elite paulistana que preservaram suas árvores. 

Em um desses lotes, exatamente no que ficava na Alameda Glete esquina com a rua Guaianazes havia um palacete, testemunha de uma época de esplendor de São Paulo, a época dos barões do café. Tinha dois pisos e um sótão, pátio interno e instalações de apoio. Tinha escadas de mármore, vitrais, espelhos importados, portas e janelas de pinho de riga e até um elevador. Pertencia a Jorge Street, médico e importante representante da indústria têxtil paulista.  O palacete dos Street era uma residência luxuosa, no bairro então nobre dos Campos Elíseos.  A árvore, já adulta e frondosa estava lá.  Foram também seus tempos de esplendor, quando sob sua sombra a família se reunia para o lazer, o repouso, o convívio familiar prazeroso.  

O palacete tinha vizinhança importante, o palácio do governo, o palácio dos Campos Elíseos, onde a máquina administrativa da cidade se movia.   Vizinhos e amigos eram o governador Armando Salles de Oliveira e o industrial Jorge Street. 

Os tempos passam, os costumes mudam e as famílias se deslocam para outros bairros mais em moda.  Armando Salles de Oliveira precisa de um local para instalar a área administrativa da recém fundada Universidade de São Paulo.  Jorge Street quer vender seu palacete. As duas necessidades se ajustam e o palacete da Al Glete 463 passa a fazer parte da USP. É 1934. 

Quando em 1937 algumas secções da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras deixaram o prédio da Faculdade de Medicina, foi para o palacete da Glete que se dirigiram as sub-secções de Química e História Natural (que englobava a Biociência e a Geociência) 

Agora é 1957. A Zoologia e a Fisiologia Animal vão para o campus universitário e liberam o espaço do prédio principal, da casa em si. Ainda ficam a Botânica e a Biologia por um tempo, mas também se mudam para o campus. E a Geologia fica de posse de todo o espaço. 

De 1937 a 1957, 20 anos, passaram pelo palacete da Glete quase 200 alunos de História Natural. De 1957 a 1969, 12 anos, passaram 426 geólogos, e foram eles, os geólogos, os que mais aproveitaram sua sombra, sua beleza, seu significado não como uma simples árvore, mas como um lugar privilegiado de convivência.  Natural que fossem eles os primeiros a perceber o real valor da Figueira e começarem a cuidar dela. 

E Químicos? Ainda não sei quantos.  E um grupo de psicólogos que fazia nos seus porões o curso de Psicologia Experimental. Ao redor de mil alunos.  

E a Figueira lá, sempre lá, nesses anos todos. Quase na porta da cantina da dona Carolina, a Figueira acompanhou esses jovens, testemunhou seus estudos, seus sufocos nas provas, suas conversas informais, ou discussões importantes.  O espaço sob a Figueira serviu de palco a alegres recepções para os calouros, para trotes inteligentes e inesquecíveis, para horas de estudos, horas de namoros estudantis. 

Então, ela deixou de ser simplesmente Fícus macrophyla, para ser a Figueira da Glete, referencia de um tempo de formação, de contatos novos, de amizades nascentes, muitas das quais se prolongaram pela vida afora. Passou a ser um símbolo, a marca de um tempo. 

1970. Também a Geociência sai do espaço da Glete e vai para o campus. Deixa o espaço, mas não esquece a Figueira.  A mansão é demolida, mas a Figueira sobrevive e vai vivendo sempre com temor de que a qualquer momento venha a ser atingida pela necessidade maior de espaço. 

Já é 1989. Durante quase 20 anos a Figueira da Glete ficou esquecida, temerosa de uma morte iminente.  A sensibilidade de um governante então, torna-a, junto a outras, imune ao corte em razão da localização e beleza.  Um decreto a mantém preservada. Resiste e se adapta ao seu meio agora poluído com fumaças de ônibus, com seu entorno que é um estacionamento feio, cheio, com carros velhos e enferrujados encarrapitados em cima de suas raízes.  Conseguem ofuscar a sua beleza, o seu porte soberbo, sua magnífica copa que atravessa a rua e quase bate no lado oposto.  Mas é sempre lembrada e cuidada pelos geólogos que até se intitulam Grupo Figueira da Glete (GFDG). 

Eu me formei, deixei a faculdade em 1951. Não segui carreira acadêmica, mas encontrei o amor e fui vive-lo intensamente. Esqueci da Glete e da Figueira por quase 50 anos.  Mas, a lembrança deve ter ficado escondida, retida em algum neurônio, porque quando um dia, perguntada sobre algum lugar da cidade que me fosse significativo, logo emergiu a figura da grande árvore, da Figueira inesquecível.  E no mapa da cidade que me foi apresentado eu a situei como ponto de referencia de uma época de minha vida, época de felicidade, época de alegria. 

Quando escrevi a história da minha vida, quando descrevi os espaços onde toda ela aconteceu, procurei muito quem soubesse alguma coisa da Figueira. De e-mail em e-mail achei o Grupo Figueira da Glete e desde então temos nos comunicado e trocado emoções quando falamos sobre a velha Figueira.  Quem disse que a Internet é um frio meio de comunicação? 

Neste janeiro de 2003 pudemos tirar a Figueira do anonimato e torná-la personagem de uma matéria da TV Cultura. Só então eu a revi, depois de 50 anos. Foi um reencontro emocionante. Nós velhos ficamos mais emotivos e saudosos (não saudosistas) e fui capaz de voltar no tempo para viver de novo uma época de satisfações intelectuais conseguidas, amizades formando suas bases e toda uma personalidade sendo montada. 

Não vivi grandes acontecimentos sob sua copa, mas vivi um cotidiano feliz. Não vivi nenhum grande amor sob ela, mas sob sua copa tive meus sonhos de um amor nascente, que durou 48 anos. 

Mas, a história da Figueira deve continuar. Ela deu “brotos”. São seus “filhotes”.E o Grupo Figueira da Glete teve o cuidado e a sensibilidade de retirá-los, plantá-los e cuidar deles com carinho. Os brotos pegaram e o primeiro deles já tem seu nome e sobrenome também. Não um nome científico, mas um nome singelo e significativo. É a Alvíssara primeira. Vai ser plantada em um espaço só seu, no campus, em frente ao prédio da Geociência. Será cuidada, acompanhada em seu crescimento e talvez venha a significar para as gerações futuras aquilo que sua “mãe” representou para nós, os alunos que viveram sob sua copa.

Um sonho? Tenho sim. Tive um sonho mais abrangente que fantasiava uma bela praça em torno da velha Figueira.  Seria um ponto de encontro dos gletinianos. Caí na real. Nunca funcionaria porque o lugar está em decadência, é feio, perigoso e seu acesso não seria agradável. Agora sonho menor. Um pequeno espaço reservado ao seu entorno, um espaço verde que não precisa tem mais do que uns 10 metros quadrados, mas que seja gramado, cuidado e protegido. E que tenha também alguns dizeres que mostrem aos passantes o que significou a velha árvore. Não é sonhar muito alto e quem sabe o sonho se torne uma realidade que eu ainda possa testemunhar. 

Essa é uma história que tomou corpo nas minhas noites insones, quando a saudades são maiores e só pensamentos sobre algo simbólico, importante e querido ameniza um pouco a dor de uma ausência. 

Como diz Ilka Brunhilde Laurito: Vamos morrer um dia. Mas, histórias podem durar depois de nós. Basta que sejam postas em folha de papel e que suas letras mortas sejam ressuscitadas por olhos que saibam ler”. 

             Enfim, é mais uma “História de Velhos”, tão ao gosto de Eclea Bosi.

                                                            Neuza Guerreiro de Carvalho


Vai para a página 5

Início da página 4

Retorna a página anterior