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Brucutu - Símbolo da Geologia da USP - Adaptado do original de Jack $ Carole Bender pelo então estudante Fernando Pellerim de Araújo da primeira Turma, formada em 1960.

O GRUPO FIGUEIRA DA GLETE
Cantinho dos gletianos da História Natural, da Química e  da Psicologia Experimental

 

 A MANSÃO DOS STREET, NUMA RUA CHAMADA ALAMEDA

 

   Sérgio Massaro - Química - Turma de 64


A grandiosa árvore ainda está lá ... à sua sombra, na última vez que ali passei, estava instalada uma banca, dessas que de jornal só tem o nome pois faz mais é trocar gibi, vender fichas de telefone, dar informações e acima de tudo servir de palco para intermináveis papos de desocupados a ver a vida passar. Por falar em a vida passar, lembro que ali outrora as coisas foram bem diferentes. Nos começos dos anos sessenta, entrei assustado pela portaria – que ficava na esquina da Guaianazes com a Glette – em minha primeira incursão num mundo que me absorveria pelo resto da vida. Sim, então eu não sabia, mas naquele momento entrava o jovem suburbano no seio da vida acadêmica: um caminho sem regresso!

De um lado a Geologia, do outro a Química. No meio o monumental casarão que, depois eu soube, pertencera aos Street, a família enriquecida nos primórdios da indústria paulista, cujo descendente, de apelido Doca, iria aparecer nas manchetes dos jornais pelo assassinato da “pantera de Minas”, notícia que, muitos anos depois, contribuiu para ilustrar minha ignorância acerca da história da família antiga proprietária do imóvel onde fiz meu curso universitário.

Da portaria subia-se por um caminho de mosaicos de pedra, que ladeava o casarão principal pelo lado da Alameda Glette, em direção aos fundos do terreno onde se erguiam os prédios, anexos posteriormente construídos, ocupados pelo extinto Departamento de Química da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo: até hoje minha alma se enche de um orgulho nostálgico ao citar sem abreviaturas o nome completo desta Instituição! Minhas recordações são muitíssimas e é muito lógico que assim seja, pois ali passei a maioria dos meus dias entre os dezoito e os vinte e cinco anos de idade! Ali entrei fascista e cristão, dali saí comunista e ateu. Ali minhas paixões infantis se transformaram em paixões mais sérias (não quero dizer adultas). Ali me ensinaram a mudar o fascínio pelo conhecimento em reverência e envolvimento com a Ciência. Ali enfim tive a sorte de conhecer algumas pessoas que nortearam minha vida.

Os prédios da Química eram na verdade dois, cada qual com três andares. Eles eram de tal forma emendados que pareciam ser um só. Numa das alas o laboratório do primeiro ano e o magno anfiteatro em padrão alemão: platéia em enorme desnível e palco atrás de uma mesa de laboratório, tudo planejado para que pudessem ser bem executados e visualizados experimentos demonstrativos. E acima de tudo uma indefectível luz vermelha sobre o lado externo da porta de entrada para, acesa, avisar que uma respeitável função, sim – função – e não uma mera aula, estava em curso! No segundo andar desta ala, laboratórios de análise quantitativa e físico-química, para alunos mais adiantados do segundo e terceiro anos, já prenunciando o “olimpo” do terceiro andar onde ficava o telefone (ora, ora ... me lembro até do número, vejam só: 52-2609 !) e os laboratórios de pesquisa aos quais na verdade só tive acesso corriqueiro depois de graduado. Na outra ala havia um porão para o almoxarifado do “Seu” João, cujos dotes artísticos de escultor não eram tão prezados pelos freqüentadores do local quanto as suas qualidades de piadista emérito. No térreo desta ala estava uma pequena copa onde só aos professores era liberada a freqüência (naquela confraria todos sabiam seu lugar!) e à medida que se subia sucediam-se laboratórios de ensino e pesquisa, coroados pelo de análise instrumental, destinado aos alunos do quarto e último ano do curso de química.

No térreo junto da entrada do setor da Química havia uma pequena salinha que me disseram outrora ter sido a oficina do vidreiro “Seu” Jaime, sábio e competente artesão, mas que agora era ocupada pelo “centrinho”, ou seja, o centro acadêmico estudantil dos alunos da Química. Apesar das freqüentes e acaloradas discussões políticas e das feiras de livros, a maior atividade cultural do local eram as memoráveis partidas de “truco” das quais o som chegada amiúde ao terceiro andar onde habitavam os deuses que não podiam ser perturbados. Minto. Talvez as maiores atividades culturais fossem os comentários sobre os filmes que o zelador do prédio, o tranqüilo “Seu” Tancredo, fazia costumeiramente a uma selecionada, diminuta e sempre atenta platéia de estudantes. O Tancredo era o primeiro a chegar e o último a sair do prédio; esta extensa jornada de trabalho era logo depois do almoço costumeiramente interrompida por um ritual: ele tirava seu branco avental, vestia o terno azul marinho e com sua gravata ia até as cercanias da Praça da República assistir seu filminho do dia e alargar sua vasta cultura cinematográfica. Também digna de nota neste piso térreo era a saletinha escondida sob a escada ao lado do anfiteatro e do laboratório do primeiro ano. Contavam que ali fora o refúgio predileto do venerado mestre Rheinboldt, um dos iniciadores e o mentor maior do curso de Química na Universidade.

A Química contava ainda com uma boa Biblioteca instalada no topo do casarão principal à qual se chegava por estreita e rangente escada ou então por um antiquado elevador que freqüentemente empacava deixando os usuários presos num sombrio ambiente que diziam ser assombrado por fantasmas.

O restante das dependências era ocupado por outros setores da Universidade, principalmente pela Geologia, então também um departamento da Faculdade de Filosofia: o magnífico Museu de Mineralogia ficava no suntuoso saguão principal do palacete dos Street. Mas havia outros locais menos solenes: um dos porões do tal palacete era, por exemplo, ocupado pelo laboratório experimental de Psicologia no qual, após alguns pedidos formais e trâmites burocráticos, os “marmiteiros”, entre os quais eu em certa época me incluí, passaram a almoçar diariamente entre formigueiros e câmaras espelhadas.

Mas havia também o prédio do Restaurante, lá na frente junto da Rua Guaianazes. No porão do mesmo os infectos sanitários (onde todo o comportamento civilizado presente no resto do “próprio” da Universidade dava lugar a pixações mil) dividiam o espaço com as oficinas dos carpinteiros, vidreiros e mecânicos. E em cima ficava a cozinha e o salão de refeições que, apesar de não ser assim lá tão pequeno, era insuficiente para atender todo o público que dele se servia. Pagava-se a refeição, a bandeja era nutrida e a gente se enfileirava à espera de vagas nas mesas para poder sentar para comer! Desconfio que foi pressionado por esta fila que adquiri o hábito de comer depressa!

O endereço oficial era “Alameda Glette, 463”, que correspondia a um pequeno portão lateral junto do prédio da Química, ao lado do porão onde o “Seu” João almoxarife ficava, que nunca era aberto e por onde ninguém circulava, a ponto de servir de refúgio para as conversas mais particulares, como aquelas que os raros casais que assumiam suas mútuas simpatias namoradeiras gostavam de entabular. Depois que a Universidade abandonou o local, o prédio teve outras funções oficiais, chegando a abrigar mesmo durante certo período a sede da delegacia policial do bairro. Mais tarde tudo foi demolido, tendo restado somente a mencionada árvore. Mas eu guardo um troféu para ilustrar essa história toda.

Não me lembro exatamente do ano, mas sei que os militares ainda dominavam a política nacional, o que induzia a população a comportamentos cautelosos para não ser responsabilizada por culpas que não tinha (ou tinha mas não eram assim lá pecados tão grandes que merecessem punições tão severas quanto aquelas que a gente supunha, não sem motivos, que eles nos iriam impor!). Voltava eu de uma sessão de cinema nas cercanias (a região, que eu me lembre, sempre foi de cinemas, incluindo os de baixa categoria com filmes grosseiros sobre sexo, mas eu tinha ido ver uma reprise do “2001” do Kubrick, acreditem!) e descia a Glette no carro quando vi o prédio em ruínas. Parei e tentei resgatar algo dentre aqueles calhaus. Só o que me pareceu digno foi a placa indicadora do endereço que ainda restava firmemente pregada ao muro. Morrendo de medo de ser apanhado por alguma autoridade (afinal tratava-se de uma ex-delegacia de polícia, não?) e depois de entortar completamente a chave de fendas, única ferramenta disponível no carro, de lá saí com uma placa metálica parcialmente enferrujada, mas que ainda registrava na sua tinta azul e branca o número 463, a derradeira recordação concreta de um tempo e lugar importante para mim e para várias gerações de químicos deste país.

     

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