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Brucutu - Símbolo da Geologia da USP - Adaptado do original de Jack $ Carole Bender pelo então estudante Fernando Pellerim de Araújo da primeira Turma, formada em 1960. GRUPO FIGUEIRA DA GLETE.
NOSSA HISTÓRIA
     


HISTÓRIA DA GEOLOGIA DO BRASIL

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 ENTREVISTAS & ARTIGOS

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DEPOIMENTO DA GEÓLOGA MARILIA DA SILVA PARES REGALI REALIZADO NO CONTEXTO DAS COMEMORAÇÕES DOS 50 ANOS DA PETROBRAS.
 

 

Marília da Silva Pares Regali  0800

IDENTIFICAÇÃO:

Meu nome é Marília da Silva Pares Regali. Local de nascimento: Mogi Mirim, estado de São Paulo, e a data é 3 de janeiro de 1930.
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FAMÍLIA:

Não havia um direcionamento para que eu seguisse alguma carreira. Mas a minha mãe me ensinou botânica e meu pai me ensinou tudo sobre terra.

Minha mãe não era nada, naquele tempo, mulher não estudava assim, mas ela era uma grande botânica, autodidata.

Meu pai trabalhava no Instituto de Agronomia de São Paulo e conhecia muitas regiões, mas o que ele fazia em casa para ajudar, era todo final de semana sair e ir com a gente prá fora da cidade para ver as pedras, ver os acidentes todos, montanhas. Por exemplo, na cidade de Casa Branca, no interior de São Paulo, tinha as chamadas voçorocas, que tinham aqueles buracos. Então, a gente descia aquilo tudo, andava, estudava a água que estava lá embaixo. Íamos todos, a família inteira. 1000

EDUCAÇÃO:

Não existia curso de geologia, existia o curso de história natural. E dentro da história natural, que eu fui fazer na Universidade de São Paulo, a parte de geologia era muito forte.

Então, a gente tinha uma geologia, por exemplo, na história natural. Eu já tinha feito petrografia, mineralogia, geologia histórica, isso tudo não existia em outras universidades. Então, quando foi criado o curso de geologia em 1957, nós estávamos aptos a fazer. Eu fiz o curso de história natural, mas dentro da história natural me orientei para geologia. Depois, quando abriu o curso de 1957 a 1959, foram três anos de geologia.

Eu sou em formada em história natural e geologia e isso me ajudou demais naquilo que fiz dentro da Petrobras, porque eu precisava muito de botânica também.

INGRESSO NA PETROBRAS:1001

Eu ingressei na Petrobras em janeiro de 1960. Eu me formei em 1959 e em 1960 eu entrei. Não tinha nenhuma expectativa em trabalhar na Petrobras. Aqui em São Paulo a gente não escutava falar muito sobre Petrobras, nem o tamanho dela, nem as coisas que ela fazia. Mas o nosso coordenador do curso falava muito quando a gente estava em aula. Ele dava geologia histórica e falava muito: “Vão trabalhar na Petrobras, porque ela treina os seus técnicos.” Mas eu ouvia aquilo e não estava nem pensando nisso. Só que quando o pessoal da Petrobras foi entrevistar os alunos que iam sair, que eram dez, eu entrei na sala e ele disse: “Aqui só para homem.” E eu voltei, mas o chefe da Estratigrafia da Petrobras conhecia muito a USP, onde eu estava fazendo curso, e disse que precisava uma pessoa na Bahia, para substituir um alemão que não ia mais ser contratado e o coordenador me pediu para entrar em contato com o pessoal do Rio, da Petrobras. Eu saí de São Paulo, vim ao Rio, falei com eles, então, me disseram que podia ir para Salvador, assim que me formasse. Recebi uns três telegramas da Petrobras chamando, e eu não tinha acabado o curso ainda. Setembro, outubro, mandaram três telegramas e eu disse: “Eu preciso terminar.” Não fiz concurso porque eu estava dentro da escola e provei que já tinha tudo para entrar no segundo ano. O concurso foi só para a turma que entrou depois, porque eu já tinha feito concurso para história natural. E passei para geologia, porque ela foi criada exatamente naquele ano. E quando me formei, um mês depois eu comecei a trabalhar em Salvador, Bahia porque eles uniram tudo ali, o centro da exploração e todo o pessoal: americanos, alemães, dinamarqueses. 1003

PROCEDIMENTOS DE TRABALHO:

O meu trabalho, eu gostava muito de geoquímica, mas não existia, sedimentologia não existia. E falei “Então, vocês me chamaram para quê aqui?” “É para substituir aquele alemão que vai embora.” “E ele trabalhava com o quê?” “Com palinologia.” Era uma bioestratigrafia feita com palinologia. É um método micropaleontológico muito forte, porque trabalha em regiões marinhas e não marinhas. Eu tive que aprender aquilo e, aliás, gostei muito. E sou especialista até hoje nisso, a Petrobras me formou. Eu me formei e ele ficou um ano mais trabalhando. Quer dizer, eu entrei em janeiro e ele foi embora em dezembro. Fiquei um ano com ele, e depois fiquei fazendo o trabalho dele, que era atender a bacia do Recôncavo, Tucano e o que se precisasse, a bacia de Sergipe também, e Alagoas. Dois ou três anos depois, nós começamos a furar Bahia Sul e Espírito Santo. E começou o talude continental. Em 1968, começou a furar o primeiro poço no Espírito Santo. Foi o Espírito Santo 1, e escolheram três pessoas, cada uma de um método, para trabalhar na plataforma. Eu tinha a ordem de pegar as amostras que chegassem. Eram três pessoas: um especialista em nanofósseis, outro em foramilífero e ostracose e eu em palinologia. Nós três tínhamos que estudar todos os poços, datar e fazer todo o trabalho e entregar para o Rio de Janeiro. Esse era o estudo, foram furados três ou quatro poços em frente de cada estado do Brasil, do sul até o norte. E todos esses nós três estudamos, depois formaram, não um setor de talude continental, e começaram a chegar mais pessoas. Apareceu um mundo de coisa nova, idades diferentes e, por exemplo, a bacia do Paraná já era conhecida, muito estudada, mas era uma coisa que nós chamávamos de paleozóico, muito antiga, entre 600 e 400 milhões de anos. Depois o Recôncavo que já era conhecido, Tucano que era mais novo, era mesozóico. Mas o cenozóico, que era o terciário nosso, estava todinho na plataforma.

Tudo isso foi novo! Nós descobrimos todas as partes do terciário e continuamos. Cada bacia com a sua particularidade, mas muito Cretáceo onde dava o óleo. Então, tinha que estudar muito o cretáceo e assim nós fomos sempre completando bacias. Apareceu a bacia Potiguar, bacia do Ceará, a foz do Amazonas. A primeira prospecção é a sísmica . Vem a sísmiestratigrafia, estuda a área e depois o pessoal da sísmica é que diz “fura aqui.” Eles é que dão a locação e todas as amostras vêm para gente estudar, e é a gente que data. Eu já perdi a conta de quantos poços em terra e em mar eu fiz.

Esse método trabalha primeiro com amostra e essa amostra vem com silicatos, areia, e tem que tirar tudo isso, deixando a parte que nos interessa para datar, que são os polens, esporos e outras coisinhas marinhas e não marinhas, algas de água doce, dinoflagelados, floramilíferos, tudo isso aparece. Então a gente tem que tratar essas amostras com diversos ácidos, como HCl para tirar o calcáreo, o HF para tirar os siliciclásticos e depois para clarear um pouco, dependendo da idade e aí fica a matéria orgânica que é a que a gente estuda. E fica reconhecendo os tipos de pólen. E a gente tem que fazer o trabalho de arquivo muito grande para trabalhar e chamar cada um pelo seu número, pela sua letra, ou pelo nome, para que o pessoal todo possa aprender. Então tem que fotografar e tem que dar o nome. Isso nós fazemos com tudo. Os outros métodos também, mas o nosso é muito forte porque dá origem dos sedimentos, que rocha formou, dá o retrabalhamento que tem, o mais velho no mais novo e dá uma série. Eu estou até aprontando agora uma palestra para dar no congresso de Paleontologia, em julho em Brasília, que fala sobre tudo isso, porque o pólen a gente usa para datar, porque o pólen não tem ambiente. O pólen faz as linhas de tempo que dão o zoneamento. E as outras coisas dão o ambiente. Nós temos as duas coisas, tanto no ambiente marinho como no de água doce ou terrestre. O método pega tudo isso. É muito bom.

E o Brasil é referência nesse método, mesmo porque é um continente muito grande e pega uma região equatorial e depois tropical, até a mais fria. Então, tem todas estas diferenças e a flora responde a isso.
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HOMENAGENS:

Eu recebi muitos convites de outras universidades, até mesmo do exterior. Agora eu sou mais, vamos dizer, sou mais festejada, porque me dão a medalha disso, me dão aquilo, mas todos me procuram também para orientar e para ensinar, principalmente na UFRJ. Mas como a Petrobras é que geralmente manda as pessoas, eu estando na ativa eu ia. Agora não, ou é a UFRJ ou é por minha conta. Mas eu continuo indo aos congressos e apresentando trabalhos. Vivendo, trabalhando até agora. E também faço parte do coral da Petrobras.
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RELAÇÕES DE TRABALHO:

Eu fui a primeira mulher, tinha mais uma que se formou comigo, mas não trabalhou. E fui “o primeiro geólogo” que veio para a Petrobras, tanto de homem quanto de mulher. E fiquei sozinha trabalhando 15 anos, não entrou nenhuma mulher nesse tempo. Entraram vários geólogos, foram aumentando, montando, mas só eu de mulher. A segunda entrou em 1975.

Como mulher, a maior parte ignorava, porque achava que a gente era muito interessada e falavam: “Não, mas eu sou geóloga, eu tenho que trabalhar.” Então, o pessoal:“Cuidado aí, não fale nome feio nenhum, palavrão, nem nada, que tem uma mulher no meio.” E campo esse negócio não existia, porque não tinha instalação para mulher, nem nada. Mas eu não estava interessada nisso, eu queria trabalhar, fosse no que fosse. E vou repetir agora uma coisa que eu digo sempre, existe um ditado espanhol que diz assim: que se você tiver que ser a relva do prado, que seja a relva mais verde e mais bonita do prado. Então, eu como geóloga dentro de um escritório, iria tentar fazer o melhor possível dentro daquilo que me coube. E foi o que eu fiz.

Talvez, um homem não pegasse tanta coisa quanto eu peguei, porque os homens geralmente escolhem o que fazem e eu não, pegava tudo. Eu nunca disse não. Eu nunca disse não. Aprendi mais.

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Fonte: Depoimento publicado no site Memórias dos Trabalhadores PETROBRAS - Item Histórias de Vida