O 
 
 

Brucutu - Símbolo da Geologia da USP - Adaptado do original de Jack $ Carole Bender pelo então estudante Fernando Pellerim de Araújo da primeira Turma, formada em 1960.

O GRUPO FIGUEIRA DA GLETE
Memórias & Histórias de Gletianos

 

UM PARTO EM CASTELA, BAHIA

 

   José Júlio Castro Carneiro - Geologia - Turma de 60

 

Mensagem: 10.529
Data: Sun,  5 Oct 2003 09:45:11 -0300
De: "josejuli" <josejuli@....com.br>
Assunto: histórias de geólogos

Caros gletianos,

Embora sem participação direta no troca troca de mensagens, tenho acompanhado todo o interessante "noticiário" do site . Então eu pensei: puxa vida, apesar de não estar enturmado com êsses "meninos", quem sabe poderia dar uma contribuição para agregar algo mais ao já animado intercâmbio entre os gletianos.

Tive então uma idéia! A qual, aliás, não é nova. Acho que o Breno é que iniciou na revista Minérios (ou Brasil Mineral?) a publicação de histórias pitorescas e originais vividas por colegas durante os trabalhos de campo. Daí veio a minha reidéia de relatarmos aqueles episódios que marcaram nossa memória durante a fase mais importante de nossa vida profissional. Para o desenvolvimento dessa idéia, 2 sugestões:


Seria elaborada uma escala, para que determinado colega contasse a sua história, com um freq
üência, digamos, semanal. Ou seja:
dia tal - Arvão.
dia tal - Celso Ferraz
etc.

Se considerarmos 100 gletianos, teríamos histórias por 2 anos.
O Scarpelli, dinossauro como eu, mais antigo e entrosado com a turma, seria o coordenador do "projeto".
Aceita ou não a minha reidéia, tomo a iniciativa de contar a primeira.

Logo após de ter me formado, em 1960, fui trabalhar na Sondotécnica, no Rio, como geofísico, a qual havia se associado à uma empresa francesa para os estudos do projeto do tunel Rio-Niteroi. Nessa época, nem se falava em ponte.
Após 3 meses, por absoluta falta de entrosamento com os franceses ( um deles era um cavalo, acho que até relinchava) pedi demissão e voltei a São Paulo para trabalhar na Cerâmica São Caetano, a convite do Paschoal Giardullo.

Minha contratação teve a finalidade específica de me dedicar exclusivamente a pesquisar magnesita, na época, uma matéria prima fundamental para a sobrevivência da empresa no setor de refratários, e que a São Caetano vinha pesquisando desesperadamente há anos em todo o Brasil. A Magnesita S/A, com sua enorme jazida da Serra das Éguas, na Bahia, dominava o mercado de refratários magnesianos, na época em avançada expansão na indústria siderúrgica e cimenteira.
O fato é que, 2 meses após o meu ingresso na empresa, descobrimos uma espetacular jazida de magnesita na localidade de Castela, no Municipio de Sento Sé, Bahia, a 15 km do rio São Francisco. A coincidência da descoberta logo após a minha contratação não se deveu, é evidente, ao meu gênio geológico, mas a uma sequência de fatores nos quais até tive uma participação importante, e acredito que poderia ser o tema para uma outra história.

Por ser solteiro ( O Paschoal já era casado) fui designado para ficar lá durante algum tempo e me dedicar à pesquisa da jazida em detalhes e administrar a implantação do projeto ( desenvolvido pelo Cid Muniz Barreto, nosso chefe, profissional de grande capacidade, com cuja convivência, naquele meu início de carreira, foi de importância fundamental para a minha formação. Posteriormente êle criou a Mineração Jundú, pioneira na exploração de areia industrial. Êle faleceu há uns 8 anos.).

E lá fiquei por 3 anos. Minha primeira casa foi um pé de juazeiro à margem do rio. Quando saí de lá, em 1964, havia uma pequena cidade, espalhada ao longo e às margens do rio, com Vila Operária, mini hospital, Escola, pôrto, vários prédios administrativos, além do setor industrial de calcinação e embalagem da magnesita.
Tive muita sorte com essa experiência profissional logo em início de carreira, pois, nesse período, ganhei ampla experiência em tudo que se refere à implantação de um projeto, no que se refere à Administração, trato com pessoal, produção de uma mina, construção, manutenção, etc. A São Caetano tinha uma equipe de alto nivel que me assessorava e orientava em tudo. Foi um curso acelerado de madureza profissional prática, que me foi útil para o resto da vida. Além do mais, o contacto diário com a beleza do Velho Chico, fornecia uma constante dosagem de poesia para a minha natureza algo romântica. Lembro cada curva do rio, suas praias, ilhas, sua riquíssima fauna de pássaros aquáticos. Certa ocasião viajei até Pirapora no vapor (não me lembro o nome) movido a roda d'água, importado do Mississipi e cruzando com várias embarcações que ainda levavam, no alto da prôa, uma majestosa carranca.

Passemos então à história:

Após os 6 primeiros meses na Castela, já havia uma infra estrutura razoável: uma bôa casa, inclusive para hóspedes, refeitório, gerador, e a estrada até a mina (15km). Fiz amizade com um médico, recém formado como eu, que era o único em Remanso, 40km rio acima. Aos sábados, no fim do dia, êle chegava de voadeira, ambos muito carentes de contactos sociais de nivel condizente com a nossa formação, tomávamos cerveja, ouviamos música e papeávamos até a hora do sono. No dia seguinte, pescaria com mais cerveja.

Numa certa noite de sábado, já embalados por algumas cervejas, aparece um nosso funcionário, operário que trabalhava na mina, chorando desesperadamente.
Doutor, pelo amor de Deus, minha mulher tá parindo sem poder parir. Acho que está morrendo.

No ato peguei o jipe, e ,junto com o médico (acho que se chamava Eduardo) e o caboclo, toquei a toda velocidade até à sua casa - um casebre na beira do rio, de chão batido. Ao saltar do jipe já sentimos um mau cheiro fortíssimo. Entramos na casa, e, no quarto, deitada sobre uma esteira, jazia uma moça bem jovem, berrando desesperadamente de dor. Para suportar o mau cheiro, tiramos as camisas e amarramos no rosto. Eduardo examinou a coitada e logo diagnosticou: o féto está morto há muitas horas (daí o mau cheiro) e temos que extraí-lo urgentemente senão a moça morrerá. Precisamos arrumar alguma coisa em forma de gancho para fazer o trabalho. Alguém sugeriu uma anzol, uma forquilha feita de um galho, um gancho de rede, mas nada disso poderia servir para o trabalho. Tive então a idéia de sugerir aquele ferro que suspendia e abaixava a capota trazeira do jipe. Arrancamos o ferro, melhoramos a forma de sua extremidade e o Eduardo iniciou a "operação" afirmando: temos que encaixar o gancho sob o queixo da criança, e extraí-la com todo o cuidado, pois se houver uma ruptura do pescoço, não haverá salvação para a mãe. Éramos 3 : o marido, segurando a mulher que berrava deseperadamente, o Eduardo trabalhando como "cirurgião" e eu auxiliando. Com muito cuidado e habilidade êle conseguiu prender o gancho por baixo do queixo da criança, e iniciou sua retirada vagarosamente.

O trabalho estava indo bem, o féto já com a cabeça de fora e já iniciando a saída dos ombros, quando aconteceu o pior: o Eduardo começou a vomitar e de repente desmaiou.

Não houve jeito: assumi o comando, e, após uma eternidade, consegui extrair a criança inteirinha.

Nessas alturas o Eduardo já havia se recuperado parcialmente. Coloquei-o no jipe, recomendei ao marido para lavar todo o ambiente com água quente, pois iríamos a Remanso para buscar remédios. Fomos diretos à Castela, pegamos a voadeira e tocamos prá Remanso, de onde retornamos após umas 2 horas, com todo o material e medicamentos escolhidos pelo Eduardo, inclusive penicilina. Com enorme ansiedade sobre a situação da mulher, voltamos ao barraco e, felizmente, embora muito debilitada, ainda estava viva. Daí para a frente, sob os cuidados e orientação do Eduardo, a mulher recuperou-se totalmente e voltou à vida normal.
Pedi então ao Eduardo para me dar um curso sobre partos para casos de urgência, e durante os 3 anos que lá permaneci, realizei, não lembro bem, de 8 a 10 partos.
Tudo verdade.   
                                                                                     

             Até a próxima,                
                    José Júlio               



Início da página

Retorna a página anterior