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Brucutu - Símbolo da Geologia da USP - Adaptado do original de Jack $ Carole Bender pelo então estudante Fernando Pellerim de Araújo da primeira Turma, formada em 1960.

O GRUPO FIGUEIRA DA GLETE
Memórias & Histórias de Gletianos

 

VIVENDO PERIGOSAMENTE II


Mensagem 10666 de 10866
De:  vicalvi@
....com.br
Data:  Ter Out 14, 2003  5:32 pm
Assunto:  Re: [figueira_da_glete] hist
órias de geólogos

José Júlio,

Sua história foi muito boa mesmo! Que situação heim...!!! Eu também tenho uma pequena história para contar. Quando pretendi colocá-la na Figueira sob o título "Vivendo Perigosamente", uma bala atravessou o barracão onde eu trabalhava e aí eu usei o mesmo título para narrar este episódio. Vou chamar de "Vivendo Perigosamente II" a que conto a seguir, que trata da agonia que passei quando visitei a Ilha do Cajual no Maranhão:

ILHA DO CAJUAL - MARANHÃO

A maré subia veloz e assustadora. Astros alinhados, maré de sizígia, maré de grande amplitude. E com ela vinham os vorazes cações em busca de alimento no mangue.
Aparentemente o primeiro gesto instintivo foi o de fotografar a minha própria agonia. Afinal, eu acabara de me atolar até a virilha num bolsão de lama e não havia muita esperança de sair dali tão cedo. Bastava atirar a câmara fotográfica para outro geólogo, que se encontrava canhestramente situado a uma certa distância e pronto, estaria tudo documentado. Mas, havia também o risco da câmara cair na lama e tudo se perder. A cada tentativa, mais inócuo se tornava o meu gesto e mais eu me afundava.

Momentos antes, na baixa-mar, percebia-se que toda a extensão da plataforma inter-marés estava coberta por lama fluída, resultado de um intenso aporte de material em suspensão. O único ponto sólido nesse lamaçal, provisoriamente um pouco mais seguro era a laje do Coringa, um conglomerado polimítico da Formação Itapecuru, de superfície extremamente irregular, que nós havíamos abandonado momentos antes. Miríades de ossos
e dentes de dinossauros (saurópodes e terópodes) pontilhavam sobre esta laje. A amostragem já havia sido concluída e tentávamos caminhar o mais rápido possível por áreas ainda inescrutáveis, até alcançarmos a estreita faixa de areia que limita o matagal da ilha. Para aliviar o peso, decidimos colocar as amostras no catamarã que permanecia "pousado" na lama a poucos metros de nós. Ao me adiantar deu-se o inopinado.

Enquanto isso, a maré alcançava a extremidade avançada da laje, destruindo o banco de areia formado pela ação de um igarapé que ali desemboca, obrigando um outro grupo de geólogos a saltar imediatamente sobre o catamarã que já flutuava próximo.
Lembrei-me do comentário de uma sibila da ilha: "Quem tirar uma pedra daqui, morre". Sensação pesadelar, temores inexprimíveis, horror atávico.

Talvez o pânico tenha me suscitado um medo infundado. De qualquer forma houve a intervenção deste sentimento arcaico do qual falamos às vezes até com mais freqüência que o prazer. Foi quando este consumidor de sustos e receios adquiriu meios suficientemente fortes para suportar e inverter a situação e agora recordar mais vividamente o prazer. Para mim foi fundamental a lembrança da apresentação dos grupos Boi de Axixá e Tambor de Crioula em São Luís. Imitando os passos do bumba-meu-boi
consegui me safar dessa.

A ilha do Cajual é assim, um santuário ecológico, a vida em equilíbrio harmonioso mas, cheia de surpresas e perigos. Berço de um ninhal de guarás, a relação morte/vida começa e termina com estas aves ciconiformes, tendo como veículo o mangue. Tudo isto edulcorado pelo toque de arte proporcionado pelo vôo destas aves marinhas que tingem de vermelho-vivo o azul do céu que lhes serve de pano de fundo.

"Êh guará, o pássaro
é bonito no mar!
você precisa avoar..."
(refrão: Tambor de Crioula de Alcântara)
 

   Marco Aurelio Vicalvi - Geologia - Turma de 64

 


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