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Brucutu - Símbolo da Geologia da USP - Adaptado do original de Jack $ Carole Bender pelo então estudante Fernando Pellerim de Araújo da primeira Turma, formada em 1960.

O GRUPO FIGUEIRA DA GLETE
Cantinho dos gletianos da História Natural, da Química e  da Psicologia Experimental

 

A HISTÓRIA DO PALACETE DA GLETE

Carlos Ribeiro Vilela (Comissão Memória)

Departamento de Biologia, IB-USP  

 
Um luxuoso palacete da época áurea dos barões do café, construído no final do século XIX na esquina da alameda Glete com a rua Guaianazes, no bairro paulistano dos Campos Elíseos, foi por mais de uma década a residência do médico e industrial carioca Jorge Street, que o havia adquirido de Firmiano Pinto, por volta de 1916.

Fundador da Companhia Nacional de Tecidos de Juta e falecido em São Paulo em 1939, Jorge Street idealizou e construiu em 1912 a vila operária Maria Zélia, no bairro do Belenzinho, que se destacou na época pela inclusão de certas “inovações”, como  creche, escola, farmácia, igreja e armazém. Posteriormente, ele atuou na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e no Ministério do Trabalho, onde exerceu importante papel na criação da legislação trabalhista durante o primeiro governo de Getúlio Vargas.

Em 1926, o palacete passou por uma grande reforma, que alterou muito o seu aspecto original. Por ocasião da grande crise mundial de 1929, ainda hipotecado, o imóvel passou para o patrimônio da Companhia de Seguros Sul América, da qual foi adquirido, no segundo semestre de 1937, pela Universidade de São Paulo (USP) para instalação de várias cadeiras da subseção de Ciências Naturais da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, que naquela época funcionavam no prédio da Faculdade de Medicina, situada à Av. Dr. Arnaldo 455.

Ainda em 1937, e durante o primeiro semestre de 1938, as dependências do imóvel foram adaptadas, com a cobertura de áreas abertas e a construção de anexos como, por exemplo, um prédio para alojar a subseção de Ciências Químicas (atual Instituto de Química, IQ). Em meados de 1938, e sob o comando Prof. André Dreyfus, a cadeira de Biologia Geral (hoje Departamento de Biologia) foi instalada no sótão do palacete. Em 1947 foi realizada a escavação do porão, que inicialmente passou a ser ocupado pelos Profs. Crodowaldo Pavan e Antônio Brito da Cunha. Foi nesse mesmo porão que em 1948/1949 se instalaram o Prof. Theodosius Dobzhansky (durante a sua segunda temporada no Brasil), sua esposa Natasha e o Prof. Hans Burla, de Zurique.

Enquanto a cadeira de Zoologia (Prof. Ernst Marcus), da qual em 1939 se ramificaria a de Fisiologia Geral (Prof. Paulo Sawaya),  ocupou o primeiro andar e a de Mineralogia e Petrologia (Prof. Ettore Onorato), o andar térreo,  a de Botânica ( Prof. Felix Rawitscher) e a de Geologia e Paleontologia (Prof. Ottorino De Fiori [Barão de Cropani]) ocuparam outras construções já existentes, e adapatadas, no fundo e na lateral do terreno do palacete.

Em janeiro de 1955, após a conclusão parcial do atual Edifício Ernesto Marcus, os Departamentos de Zoologia e Fisiologia Geral foram transferidos para a Cidade Universitária “Armando de Salles Oliveira” (CUASO), originalmente uma fazenda pertencente ao Instituto Butantã, na qual eram criados cavalos para uso na obtenção de vacinas.

Em 1957, a partir de algumas cadeiras do curso de História Natural foi criado o curso de Geologia, que permaneceu no palacete. Logo a seguir, depois  da construção do atual Edifício André Dreyfus,  os Departamentos  de Botânica e de Biologia Geral também se transferiram para a CUASO,  respectivamente em 1958 e 1959.

Após quatro anos, em dezembro de 1963, o então curso de História Natural,  que inicialmente (1935) havia sido denominado Ciências Naturais, assumiria a atual denominação de curso de Ciências Biológicas.

Foi nas dependências do lendário palacete, que as cadeiras que deram origem aos atuais Departamentos do Instituto de Biociências (IB, criado no final de 1969) se solidificaram como importantes centros, tanto de geração de conhecimento como de formação de recursos humanos na área.

Após a reforma universitária de 1969, os Departamentos que originaram o então recém-criado Instituto de Geociências e Astronomia (IG), também foram finalmente transferidos para a Cidade Universitária, deixando o palacete e seus anexos completamente vazios. Em 1972, parte das edificações foi então alugada para o terceiro distrito policial da Secretaria da Segurança Pública.

Lamentavelmente, à medida que as dependências do palacete e dos anexos foram sendo desocupadas, a falta de manutenção e a precária vigilância favoreceram sucessivas invasões, com subqüentes depredações, furtos e uma acelerada degradação do imóvel, que tomou o aspecto de um cortiço. Com aprovação do Conselho Universitário, e após quatro concorrências públicas realizadas em 1972 e 1973, nas quais houve a participação de apenas um interessado, a propriedade foi vendida. O palacete e os anexos foram logo em seguida demolidos e o terreno alocado para um estacionamento, que funciona até hoje (2003) no local, permitindo que veículos ocupem agora aquele que poderia ter se tornado um espaço dedicado à memória da USP. A velha figueira exótica (Ficus macrophylla Pers.), que foi incluída em um tombamento de parte da vegetação da cidade de São Paulo, e fragmentos do muro original do velho palacete são os únicos vestígios da infância do que são hoje o IB, IG, e IQ.

É inegável que sucessivas crises financeiras ocorreram durante a criação e a expansão da USP e, especialmente, no início da construção da Cidade Universitária. Contudo, valeria a pena imaginar se, naquela época, uma mobilização de pessoas preocupadas com a  preservação da memória paulistana e, sobretudo, da USP, não teria propiciado às novas gerações admirar pessoalmente o velho palacete e não apenas por meio das fotos afixadas  neste painel. As legendas “muito antes”, “antes” e “depois” têm a finalidade de permitir uma reflexão sobre a perversa cultura de destruição da memória.

Em 2002, alguns geólogos  criaram o grupo figueira da Glete e uma página na internet (http://www.figueiradaglete.com.br/geologia_usp.html) para tentar resgatar o que restou na memória daquela comunidade, que viveu parte de suas vidas naquele palecete e sob a sombra da majestosa figueira. Em 2003, um espaço da página eletrônica foi cedido e denominado “cantinho da História Natural”, que tem como organizadora a Profa. Neuza Guerreiro de Carvalho. Um clone da árvore foi plantado em 30.V.2003, dia do geólogo, no gramado entre a rua do Lago e o prédio do IG. Na semana seguinte, cinco exsicatas da árvore original foram coletadas e depositadas no herbário do Departamento de Botânica do IB-USP.  

Agradecimentos. À Maria Helena  da Silva Leme, do Serviço de Protocolo e Arquivo do IB, por localizar vários processos arquivados no COESF e na reitoria da USP e facilitar a sua consulta, à Maria Beatriz Bacellar Monteiro, sua mãe, sua avó e sua tia-avó (respectivamente bisneta, neta e filhas de Jorge Street), pelas preciosas informações e pela fotocópia de uma das fotos, ao Sr. Paulo Nobre da Silva (filho do locatário do “estacionamento Princesa”, pela permissão para coleta das exsicatas, ao Sr. Abel Ribeiro Cangussu, pela sua preparação, aos Drs. J. R. Pirani, Inês Cordeiro e Lúcia Rossi, pela intermediação e ao Dr. S. Romaniuc Neto (Instituto de Botânica) pela identificação da figueira, aos Drs. Antônio Brito da Cunha, Berta Lange de Morretes e Eudóxia Maria Froelich pela revisão crítica do texto.  

Bibliografia

Campos, E. de S. 1954. História da Universidade de São Paulo. São Paulo: Universidade de São Paulo, 582 p. +  prancha.Mendes, E. G. 1985. Departamento de Fisiologia Geral (1938-1984). Boletim de Fisiologia Animal  9 : 7-32.
Narchi, W.
1979/1980. A Zoologia no Brasil, p. 89-116. In M.G. Ferri & S. Motoyama (eds) História das Ciências no Brasil, v. 2. São Paulo: EPU/EDUSP, 468 p.   
Teixeira, P.P.
1990. A fábrica do sonho: trajetória do industrial Jorge Street. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 193 p.
Processos Consultados
   

Arquivo Geral da Reitoria da USP:
57.1.4750.1.0, 69.1.10109.1.3, 69.1.25764.1.2   
Arquivo do COESF (ex-FUNDUSP):
71.1.12892.51.7, 73.1.13103.51.7, 73.1.13387.51.5, 73.1.13604.51.6, 73.1.13808.51.0.


C.R. Vilela (Comissão Memória) Departamento de Biologia, IB-USP

     30.IX.2003


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